Uma formação rochosa que lembra o casco de um navio voltou a circular nas redes sociais acompanhada da alegação de que pesquisadores teriam encontrado — e até confirmado — a Arca de Noé na Turquia. A afirmação, porém, não corresponde às evidências disponíveis.
Até agora, não foi localizada no lugar nenhuma embarcação, madeira trabalhada ou estrutura arqueológica que comprove uma construção humana. O que existe é a formação Durupınar, próxima a Doğubayazıt, no leste da Turquia, conhecida desde 1959.
Formato de barco não comprova origem humana
Vista do alto, a formação tem contorno alongado e aproximadamente 157 metros de comprimento. A aparência ajudou a alimentar a hipótese de que seria a embarcação descrita na Bíblia. Na investigação científica, entretanto, a semelhança visual não basta para determinar a origem de uma estrutura.
Uma análise publicada em 1996 por Lorence Collins e David Fasold no Journal of Geoscience Education concluiu que Durupınar é uma formação geológica natural. Segundo o estudo, camadas de rocha foram deformadas e depois expostas pela erosão, criando o perfil semelhante ao de um barco.
Materiais apresentados no passado como possíveis peças metálicas foram identificados como concentrações naturais de minerais, incluindo limonita e magnetita. Amostras atribuídas a madeira petrificada também foram descritas como rochas metamorfizadas. Até mesmo as chamadas pedras-âncora possuem composição vulcânica compatível com a geologia da região.
Radar encontrou anomalias, não corredores
Levantamentos com radar de penetração no solo identificaram diferenças no subsolo. Esse tipo de equipamento registra mudanças entre materiais, densidades e camadas geológicas, mas não produz fotografias de objetos enterrados. Por isso, uma anomalia não pode ser classificada automaticamente como parede, corredor ou cabine.
Para comprovar a presença de uma embarcação, seria necessário encontrar elementos verificáveis, como grande quantidade de madeira trabalhada, encaixes, ferramentas, estruturas organizadas artificialmente ou artefatos associados à construção. Nada disso foi apresentado.
Novas pesquisas começaram em 2026
O assunto voltou a ganhar repercussão porque um novo projeto recebeu autorização de órgãos turcos para realizar levantamentos geológicos, análises geofísicas e perfurações. O trabalho é dirigido pelo arqueólogo Cenker Atila, da Universidade Cumhuriyet de Sivas, em cooperação com a organização Noah’s Ark Scans.
Em setembro, a equipe informou que uma broca encontrou uma camada resistente e levantou a possibilidade de material petrificado. As amostras ainda precisam passar por análise. Encontrar uma camada dura sob uma formação rochosa não comprova que exista madeira ou uma embarcação.
O próprio projeto afirma que seu objetivo é produzir documentação geofísica e que o programa não autentica alegações históricas ou religiosas. A autorização concedida pelo governo turco permite investigar o local, mas não representa reconhecimento de que a Arca tenha sido encontrada.
Assim, a conclusão permanece a mesma: Durupınar é uma formação geológica em investigação, e não há anúncio científico que confirme a descoberta da Arca de Noé. A fé religiosa não depende dessa análise, mas uma alegação arqueológica precisa ser sustentada por evidências verificáveis e reproduzíveis.
Foto: Wikkiwooki/Wikimedia Commons — licença CC BY-SA 4.0; imagem recortada para o formato de capa.


