Política de Lula segura gasolina em até R$ 1,10 por litro, mas alívio fica sob ameaça com Flávio

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A combinação entre a redução dos impostos federais promovida pelo governo Lula e a política de preços adotada pela Petrobras funciona hoje como uma barreira contra o avanço da gasolina no Brasil. Considerando os valores registrados em 9 de outubro, essas duas medidas amortecem em aproximadamente R$ 1,10 o preço de cada litro vendido ao consumidor.

Esse alívio poderá ficar sob ameaça caso Flávio Bolsonaro vença a eleição e decida retomar o modelo praticado durante o governo de seu pai, Jair Bolsonaro. Embora tenha criticado publicamente os reajustes da Petrobras, o ex-presidente manteve durante seu mandato a política de paridade internacional herdada do governo Michel Temer. A regra vinculava mais diretamente os preços internos ao petróleo e ao dólar.

Bolsonaro chegou a pressionar a direção da estatal e adotou cortes tributários em 2022, quando disputava a reeleição, mas não substituiu estruturalmente a paridade internacional. A mudança permanente na política comercial da Petrobras ocorreu em 2023, já no governo Lula, quando a empresa passou a considerar também os custos nacionais de produção e as condições do mercado brasileiro.

REDUÇÃO DE IMPOSTOS REPRESENTA CERCA DE R$ 0,61 NA BOMBA

O governo Lula zerou PIS/Pasep, Cofins e Cide incidentes sobre a gasolina, ampliando a desoneração federal para R$ 0,89 por litro de gasolina A — o combustível puro, antes da mistura obrigatória com etanol.

Como a gasolina comum vendida nos postos contém 68% de gasolina A e 32% de etanol anidro, a redução tributária equivale matematicamente a aproximadamente R$ 0,61 por litro na bomba, desde que o benefício seja repassado integralmente pelas distribuidoras e pelos postos.

O valor é uma estimativa. Os preços dos combustíveis são livres e também incluem ICMS, margens de distribuição, custos de transporte e remuneração dos postos.

PREÇO DA PETROBRAS REPRESENTA OUTRO ALÍVIO DE APROXIMADAMENTE R$ 0,50

Além da redução dos tributos, existe a diferença entre o valor cobrado pela Petrobras e o chamado preço de paridade de importação. Essa referência calcula quanto custaria trazer o combustível do exterior, incluindo cotação internacional, dólar, frete, movimentação portuária, armazenamento e outros custos.

Em 9 de outubro, a gasolina comercializada pela Petrobras estava R$ 0,73 por litro abaixo dessa referência, segundo estimativa da Abicom e da StoneX. Aplicada à quantidade de gasolina pura presente no combustível vendido nos postos, essa diferença representa aproximadamente R$ 0,50 por litro para o consumidor.

Somados os dois efeitos — política de preços da Petrobras e redução dos impostos federais —, o amortecimento chega a cerca de R$ 1,10 por litro.

Em uma simulação, uma gasolina vendida por R$ 6,50 poderia chegar a aproximadamente R$ 7,60 se a estatal elevasse o preço até a paridade de importação e o próximo governo retirasse integralmente a desoneração. O cálculo mantém inalterados o preço do etanol, o ICMS e as margens das empresas.

Não se trata de uma previsão, mas de uma demonstração do tamanho da proteção atualmente existente.

AUMENTO NÃO FICARIA RESTRITO AOS MOTORISTAS

O preço da gasolina não afeta apenas quem utiliza o próprio carro para trabalhar, estudar ou cumprir compromissos cotidianos. Uma elevação dessa magnitude atingiria diretamente motoristas de aplicativos, taxistas, entregadores, motociclistas e pequenos empresários.

O efeito também se espalharia pelo transporte coletivo, pelos serviços urbanos e pela cadeia logística. Mesmo quando o deslocamento das mercadorias depende principalmente do diesel, a gasolina integra os custos de veículos leves utilizados na distribuição, supervisão, vendas, entregas rápidas e prestação de serviços.

Empresas tendem a incorporar esses gastos aos preços cobrados do consumidor. O aumento acaba aparecendo nas entregas, nas mensalidades, nos serviços de manutenção e em diversos produtos comercializados nas cidades.

ALIMENTOS TAMBÉM PODEM FICAR MAIS CAROS

O combustível é um componente importante da inflação porque participa de praticamente todas as etapas da economia. Produtos agrícolas precisam ser transportados das áreas produtoras aos centros de distribuição e, depois, aos supermercados, feiras, restaurantes e pequenos comércios.

Quando o custo logístico aumenta, parte dessa despesa é transferida para os alimentos. O impacto costuma ser mais pesado para as famílias de baixa renda, que comprometem uma parcela maior do orçamento com alimentação e transporte.

Uma eventual mudança na política da Petrobras, acompanhada da retomada integral dos impostos, poderia produzir uma reação em cadeia: gasolina mais cara, transporte mais oneroso, aumento dos custos empresariais e pressão adicional sobre a inflação.

ESCOLHA ELEITORAL TAMBÉM ENVOLVE O PREÇO DO COMBUSTÍVEL

A política adotada durante o governo Lula reduziu a exposição imediata do consumidor brasileiro às oscilações internacionais. O país continua sujeito ao dólar e ao petróleo, mas essas variações deixaram de ser transferidas automaticamente e de forma mecânica para os preços da Petrobras.

A eleição, portanto, também envolve uma escolha sobre o papel da estatal e a forma como o Brasil calcula o preço dos combustíveis.

Jair Bolsonaro passou grande parte de seu mandato criticando os reajustes, mas preservou o modelo de paridade internacional. Uma vitória de Flávio Bolsonaro, acompanhada da recuperação dessa política e do fim das medidas tributárias atuais, colocaria em risco o alívio de aproximadamente R$ 1,10 por litro.

A conta não seria paga apenas nos postos. Ela chegaria ao transporte, à logística, aos serviços e, principalmente, à mesa dos brasileiros.

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