Especialistas apontam mudanças climáticas e falhas urbanas como causas de tragédia na Zona da Mata mineira

Data:

Os temporais que atingiram a Zona da Mata mineira deixaram ao menos 47 mortos, cerca de 3 mil desabrigados e 400 desalojados, principalmente em Juiz de Fora e Ubá. Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a combinação entre mudanças climáticas, ocupação desordenada do solo e falhas históricas no planejamento urbano ajuda a explicar a dimensão da tragédia.

O geógrafo Miguel Felippe, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, afirma que eventos extremos estão diretamente ligados ao aquecimento global. Segundo ele, a intensificação das chuvas é reflexo das mudanças climáticas e tende a se tornar cada vez mais frequente. O pesquisador também critica a falta de políticas ambientais estruturadas e o avanço da ocupação de áreas vulneráveis, especialmente por populações de baixa renda.

Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais indicam que Juiz de Fora está entre os municípios com maior proporção de moradores em áreas de risco. A cidade registrou, em apenas um dia, quase todo o volume de chuva esperado para fevereiro, com impactos severos em bairros como Morro do Imperador, Paineiras e Parque Burnier.

O meteorologista Marcelo Seluchi, do Cemaden, explica que o Oceano Atlântico está cerca de 3 °C acima da média histórica na costa, o que aumenta a evaporação e a quantidade de umidade transportada para o continente. Ao encontrar as áreas montanhosas da região, essa umidade se transforma em chuvas intensas. “Nos últimos anos temos mais umidade do que o habitual nesta época, consequência do aquecimento global”, avaliou.

Especialistas também apontam que a vulnerabilidade social agrava os impactos. Áreas mais pobres concentram as maiores perdas humanas e materiais, já que moradores têm menos capacidade de resposta e reconstrução após os desastres.

No campo das soluções, pesquisadores defendem uma agenda estruturada de adaptação climática, com investimentos em drenagem urbana, contenção de encostas, ampliação de áreas verdes e retirada gradual de famílias de zonas de alto risco. Entre as alternativas estão técnicas de engenharia como pôlderes — estruturas que isolam áreas sujeitas a inundações — além da ampliação da permeabilidade do solo urbano para reduzir o escoamento superficial.

Para os especialistas, além das obras, é fundamental investir em educação preventiva e planos de contingência claros, garantindo que moradores saibam como agir diante de alertas. A avaliação é de que, diante da intensificação dos eventos extremos, a adaptação das cidades deixou de ser opção e passou a ser necessidade urgente.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe

Newsletter

spot_imgspot_img

Mais Lidos

Leia Mais

Santos anuncia fiscalização contra lixo colocado nas ruas fora do horário de coleta

Santos anunciou reforço da fiscalização sobre resíduos colocados fora do horário de coleta. Prefeitura relaciona a prática ao entupimento de galerias.

Justiça manda a júri fisiculturista acusado de tentar matar médica

Pedro Camilo Garcia Castro será submetido a júri por tentativa de feminicídio contra a médica Samira Mendes Khouri. Justiça manteve a prisão preventiva.

Diocese de Santos afasta padre preso sob suspeita de estupro em Praia Grande

Diocese de Santos suspendeu provisoriamente as atividades religiosas de Jucelino de Oliveira, preso em Praia Grande após denúncias de dois coroinhas.

Justiça extingue ação da Prefeitura de Santos para retomar terreno do Instituto De Rosis

Justiça extinguiu ação para retomada de terreno de 5 mil m² ocupado pelo Instituto De Rosis, na Ponta da Praia. Prefeitura pode recorrer.