Existe derrota e existe suicídio esportivo. O que o Senegal fez em Seattle, nesta quarta-feira, pertence à segunda categoria. Os Leões da Teranga construíram 2 a 0 sobre a Bélgica, dominaram a partida por mais de uma hora, tiveram nos pés as chances de transformar o jogo em goleada — e terminaram eliminados por 3 a 2, na prorrogação, depois de um colapso que não pode ser explicado por azar, arbitragem ou brilho adversário. A Bélgica venceu, sim. Mas, antes de qualquer mérito belga, essa classificação foi culposa: o Senegal a entregou.
E que fique claro o tamanho do desperdício. O Senegal jogou melhor. Muito melhor. Abriu o placar com Diarra aproveitando rebote de bola na trave de Ismaïla Sarr, ampliou no início do segundo tempo com um golaço do próprio Sarr, e ainda teve, aos 5 minutos da etapa final, a chance mais clara do jogo para fazer 3 a 0: Mané serviu Diarra livre, na marca do pênalti, e o volante chutou para fora. Foi ali, naquele minuto, que a eliminação começou a ser escrita.
O pecado capital: recuar com o jogo na mão
Depois do 2 a 0, o Senegal tomou a decisão que condena qualquer time em mata-mata: parou de jogar. Recuou as linhas, abriu mão da bola, convidou a Bélgica para o seu campo e passou a apostar que 40 minutos de resistência passiva seriam suficientes contra um adversário com Lukaku, De Bruyne e Trossard no elenco. Não foi estratégia: foi ingenuidade travestida de administração.
O próprio desenrolar do jogo mostra o roteiro do desastre. Aos 42, Mbaye recebeu nas costas da defesa, invadiu a área e teve o gol da classificação nos pés — para fora. Um minuto depois, aos 43, Trossard lançou na área, o goleiro Diaw saiu mal, e Tielemans empatou de cabeça no gol vazio. Antes disso, aos 40, Lukaku já havia descontado num cruzamento de Meunier. Traduzindo: o Senegal perdeu o 3 a 0, perdeu o 3 a 1, e tomou dois gols em três minutos. Um time que dominou 70 minutos de jogo se desfez em 180 segundos por pura incapacidade de gerenciar o momento.
Faltou maldade, sobrou inocência
Vamos falar da arte que o Senegal se recusou a praticar: a de matar o jogo. Toda equipe madura sabe que existe hora de jogar bonito e hora de jogar feio. Hora de cadenciar, de forçar a falta no meio, de gastar o relógio no escanteio, de esfriar o ímpeto adversário com a cera institucionalizada que qualquer seleção calejada executa sem pudor. Chame de malandragem, de ofício, de anti-jogo — o nome não importa. Em mata-mata de Copa do Mundo, isso vale classificação.
O Senegal não fez nada disso. Com 2 a 0 e depois com 2 a 1, seguiu trocando passes displicentes perto da própria área, permitiu que o jogo mantivesse ritmo de ida e volta — exatamente o que interessava à Bélgica — e não teve um único jogador com a frieza de pisar na bola e dizer “o jogo acaba aqui”. A prorrogação escancarou o vácuo: a equipe de Pape Thiaw, sem intensidade e sem plano, ficou entregue, e o pênalti de Camara sobre Tielemans, confirmado pelo VAR aos 16 do segundo tempo extra, foi menos um lance isolado e mais a consequência natural de um time que se ofereceu ao desastre. Tielemans bateu no ângulo e fez o 3 a 2. Fim.
Esse jogo reacende, inevitavelmente, um debate antigo no futebol: quantas vezes seleções africanas de enorme talento já caíram em Copas não por falta de futebol, mas por falta de ofício na hora de fechar o caixão? O Senegal desta quarta é o exemplo mais doloroso em anos. Uma geração com Mané, Sarr, Camara e companhia, capaz de aplicar 5 a 0 no Iraque dias antes — a maior goleada de uma africana em Copas —, saiu do Mundial não porque encontrou um gigante, mas porque não soube fazer o mais banal: proteger uma vantagem de dois gols. Talento essa equipe tem de sobra. O que falta é a cascudez que só se cobra de quem já tem tudo o mais.
A Bélgica agradece — e Lukaku e Tielemans assinam
Nada disso apaga o mérito de quem estava do outro lado, claro. A Bélgica de Rudi Garcia esteve morta, aos gritos, com Tielemans e Trossard trocando empurrões na pausa de hidratação e Doku deixando o campo revoltado com a substituição. E mesmo assim reagiu. A entrada de Lukaku no intervalo mudou o jogo: o centroavante descontou de primeira, virou referência e arrastou a equipe. Tielemans, de vilão do bate-boca a herói, fez os outros dois — a cabeçada do empate e o pênalti da classificação. É a velha lição: contra os grandes, qualquer respiro vira punição.
Mas sejamos honestos com a hierarquia dos fatos: a Bélgica não desmontou o Senegal. O Senegal desmontou o Senegal, e a Bélgica, experiente, apenas recolheu os escombros com a competência de quem já viveu cem jogos assim.
O que fica
A Bélgica avança e enfrenta nas oitavas o vencedor de Estados Unidos x Bósnia, sabendo que precisará de muito mais do que mostrou em Seattle para sonhar alto. O Senegal volta para casa com a eliminação mais amarga possível: a que não veio do adversário, mas do espelho. Ter a classificação na mão duas vezes — no 3 a 0 perdido por Diarra e no gol perdido por Mbaye a um minuto do empate — e jogá-la fora é o tipo de ferida que acompanha uma geração.
Que sirva de lição, porque a matéria-prima existe: o Senegal tem craques, tem velocidade, tem torcida e tem história recente de conquistas no continente. O que precisa aprender, de uma vez por todas, é o que toda potência já sabe: Copa do Mundo não se ganha só jogando bem. Se ganha, também, sabendo chutar a bola pro mato quando o relógio é seu maior aliado. Nesta quarta, o Senegal preferiu a inocência. E a inocência, no mata-mata, tem sempre o mesmo preço.


