O Brasil aderiu como fundador a uma organização internacional de cooperação em inteligência artificial articulada pela China. A criação da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial, conhecida pela sigla em inglês Waico, marca uma nova etapa da disputa global por influência sobre as regras que vão orientar o uso da tecnologia.
A iniciativa chinesa busca reunir países em torno de temas como desenvolvimento seguro da inteligência artificial, redução das desigualdades de acesso à tecnologia e fortalecimento da cooperação internacional. O Brasil assinou o acordo de criação como membro fundador, segundo nota conjunta dos Ministérios das Relações Exteriores, da Ciência e Tecnologia e da Gestão.
A adesão ocorre em um momento em que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma disputa entre empresas de tecnologia e passou a envolver soberania digital, proteção de dados, centros de processamento, propriedade intelectual, infraestrutura, energia e poder regulatório.
Para países em desenvolvimento, a participação em fóruns internacionais pode abrir espaço para acesso a conhecimento técnico, treinamento, financiamento e maior representação nas decisões globais sobre IA. A China tem buscado ocupar esse espaço ao apresentar a cooperação tecnológica como pauta do Sul Global.
Apesar disso, ainda há dúvidas sobre o funcionamento prático da nova entidade. Segundo o Estadão, o Brasil ainda não detalhou de forma satisfatória a estrutura de poder da organização, o sistema de votação, os critérios de escolha dos dirigentes nem as obrigações financeiras e administrativas assumidas pelos integrantes.
Também não foram esclarecidas as salvaguardas envolvendo dados, propriedade intelectual, concorrência entre fornecedores e liberdade regulatória. Esses pontos são considerados centrais porque a inteligência artificial depende de grandes bases de dados, infraestrutura tecnológica e regras capazes de equilibrar inovação, privacidade e segurança.
A organização foi concebida e articulada pela China, terá sede em território chinês e conta com 29 países fundadores. A composição inicial chamou atenção porque, segundo a publicação, há predominância de regimes autoritários e nenhuma das grandes democracias tecnológicas participou da criação da entidade.
A entrada do Brasil pode ter duas leituras. De um lado, permite ao país participar desde o início de uma nova instância de debate internacional sobre inteligência artificial. De outro, exige transparência sobre quais compromissos foram assumidos e qual será o poder real de influência brasileira dentro da organização.
O Brasil tem tradição de governança multissetorial na internet, com participação de governo, empresas, academia e sociedade civil. Essa experiência poderia contribuir para defender princípios como proteção da privacidade, transparência algorítmica, liberdade de expressão e uso responsável de dados em um fórum ainda em formação.
A adesão à Waico, portanto, coloca o País dentro de uma disputa estratégica sobre o futuro da inteligência artificial. O ponto central agora é saber quais regras o Brasil aceitou, quais obrigações assumiu, quais garantias preservou e que influência terá em uma organização liderada pela China.


