O avanço das apostas online no Brasil tem provocado impacto direto no orçamento das famílias e no comércio varejista. Dados citados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo apontam que as bets retiraram R$ 143 bilhões do varejo entre 2023 e março de 2026. Somente em março deste ano, os gastos com apostas ultrapassaram R$ 30 bilhões.
O crescimento foi acelerado. Em três anos, o gasto mensal com apostas aumentou 500%, segundo o levantamento. A análise indica que, em muitos casos, o dinheiro usado nos jogos não veio de sobra no orçamento, mas de recursos que seriam destinados a despesas essenciais das famílias.
O impacto é maior entre grupos economicamente vulneráveis. De acordo com os dados da CNC, homens, pessoas com 35 anos ou mais e famílias de baixa renda aparecem entre os mais expostos ao endividamento provocado por jogos de azar. O cenário se agrava em um país que já registra 81,7 milhões de inadimplentes.
O problema também alcança beneficiários de programas sociais. Levantamento do Tribunal de Contas da União apontou que integrantes de famílias com beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3,7 bilhões para casas de apostas somente em janeiro de 2025. O valor corresponde a 27% dos R$ 13,7 bilhões distribuídos pelo programa naquele mês.
Diante desse quadro, o governo federal endureceu regras para o setor. Mais de 3,7 milhões de pessoas já estão proibidas de apostar no Brasil, incluindo 2,8 milhões de beneficiários do BPC e do Bolsa Família, além de 925 mil usuários que solicitaram autoexclusão das plataformas. Esses CPFs ficam bloqueados nos sites autorizados pelo Sistema de Gestão de Apostas, vinculado ao Ministério da Fazenda.
A restrição também alcança outros grupos, como agentes públicos ligados ao setor de apostas, atletas profissionais, árbitros, dirigentes, técnicos esportivos, pessoas diagnosticadas com ludopatia e inscritos em programas de renegociação de dívidas federais.
Além do bloqueio de usuários, novas regras para publicidade passam a valer no dia 17. As propagandas de bets deverão apresentar advertências sobre riscos de perda de dinheiro, dependência e falsa percepção de investimento. Também ficam proibidas práticas como usar especialistas para dar aparência técnica às apostas, divulgar histórico de premiações para estimular jogadores e direcionar publicidade a crianças e adolescentes.
As empresas que descumprirem as normas poderão ser punidas com multa, suspensão temporária ou até cassação da autorização para operar. O governo também informou que 56 mil sites, aplicativos e plataformas de apostas já foram derrubados no país, além da remoção de quase mil perfis de influenciadores ligados a irregularidades.
O conjunto de dados mostra que as apostas online deixaram de ser apenas uma questão de entretenimento e passaram a representar um problema econômico, social e de saúde pública. Além de pressionar o orçamento doméstico, o avanço das bets desloca recursos do consumo cotidiano, amplia o risco de endividamento e atinge com mais força famílias que já vivem com renda limitada.


