Um ano após o anúncio do tarifaço de 50% imposto por Donald Trump sobre produtos brasileiros, a participação dos Estados Unidos nas exportações do Brasil caiu ao menor patamar da série histórica da balança comercial, iniciada em 1997. A fatia americana nas vendas externas brasileiras passou de 12,1% para 9,4% na comparação entre o primeiro semestre de 2025 e o mesmo período deste ano.
A retração mostra uma mudança relevante no comércio exterior brasileiro. Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos perderam espaço, a China ampliou sua participação nas exportações nacionais de 28,9% para 31,5%, consolidando-se como principal destino dos produtos brasileiros e concentrando quase um terço das vendas do país ao exterior.
Apesar da queda, os Estados Unidos seguem como o segundo maior mercado para os produtos brasileiros. A Argentina, terceira colocada, também perdeu participação e ficou com 4%. O movimento reforça o impacto das tarifas sobre a reorganização de mercados e sobre a dependência crescente do Brasil em relação ao comércio com a China.
Em valores, as exportações brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre, queda de 13% em relação ao mesmo intervalo de 2025. O desempenho ficou na contramão do resultado geral das vendas externas do Brasil, que cresceram 11,5% no período. As exportações para a China avançaram 21,9%, enquanto as destinadas à União Europeia subiram 12,8%.
A redução também apareceu nas importações. O Brasil comprou menos produtos americanos no semestre, com queda de 13%, mesmo percentual registrado nas exportações para os Estados Unidos. Ainda assim, a balança bilateral seguiu deficitária para o Brasil: as importações superaram as exportações em US$ 1,5 bilhão.
Com o recuo das trocas comerciais, a participação dos Estados Unidos na corrente total de comércio do Brasil caiu para 11,1%, também o menor nível da série histórica. O indicador considera a soma de exportações e importações entre os dois países.
O tarifaço afetou principalmente produtos sujeitos a sobretaxas e setores enquadrados em regras comerciais específicas dos Estados Unidos. De acordo com painel da ApexBrasil, itens que representam 25% do valor exportado pelo Brasil ao mercado americano enfrentam tarifas adicionais de 12,5% a 25%. Outros 20% estão submetidos às regras da Seção 232, aplicadas a segmentos considerados estratégicos para a segurança nacional americana, como aço, alumínio, veículos, autopeças e derivados de cobre.
Entre os produtos mais sensíveis à dependência do mercado americano estão mel, sebo bovino, filés de tilápia e determinados tipos de madeira. Setores como couros e revestimentos cerâmicos também aparecem entre os que têm maior parcela de itens atingidos por tarifas.
O café não torrado foi um dos produtos prejudicados no período, com queda de 35% nas vendas aos Estados Unidos no semestre. O produto in natura entrou posteriormente na lista de exceções, mas o setor ainda busca ampliar a isenção para o café solúvel. No caso das frutas, produtores passaram a buscar novos destinos, inclusive em mercados mais distantes e com maior custo logístico, como Índia e países do sudeste asiático.
Levantamento da Amcham mostra que as exportações de produtos sobretaxados caíram 20,5% nos 12 meses encerrados em junho, na comparação com os 12 meses anteriores. No recorte semestral, as vendas desses itens recuaram 17%, enquanto os produtos não taxados tiveram queda de 9%.
O cenário segue instável porque novas medidas tarifárias ainda podem ser adotadas a partir de investigações comerciais em andamento nos Estados Unidos. Para o Brasil, a queda na participação americana expõe não apenas o efeito imediato das tarifas, mas também o risco de uma relação bilateral mais fraca em um dos mercados mais importantes para as exportações nacionais.


