Quatro em cada dez brasileiros não se identificam com esquerda, direita ou centro. Talvez não esteja faltando opinião. Talvez esteja faltando uma política capaz de lidar com a vida como ela realmente é.
E se você não for de esquerda nem de direita?
Talvez já tenham dito que você precisa escolher um lado. Que quem não se encaixa em um dos dois está “em cima do muro”, não entende de política ou simplesmente não sabe o que quer.
Eu já pensei bastante sobre isso.
Hoje acredito que talvez o problema não esteja em quem não consegue se encaixar.
Talvez o problema seja tentar colocar toda a complexidade da vida dentro de apenas duas caixas.
Durante décadas, esquerda e direita ajudaram a organizar diferenças importantes sobre Estado, mercado, liberdade, igualdade, proteção social, propriedade e desenvolvimento. Continuam sendo referências políticas legítimas.
Mas a realidade é muito maior do que dois rótulos.
E os próprios números mostram que muita gente parece sentir isso.
Você não está sozinho
Em 2024, o DataSenado ouviu 21.808 pessoas em todo o Brasil. Quarenta por cento disseram não se considerar de esquerda, de direita nem de centro. Outros 11% se declararam de centro.
Somados, 51% dos entrevistados não se colocaram especificamente nem na esquerda nem na direita.
É importante deixar claro: isso não significa que esses 51% pensem igual. Não significa que formem um novo grupo político e muito menos que concordem com o que estou propondo aqui.
Mas significa uma coisa bastante simples:
não se identificar com os dois polos não é uma posição marginal.
Entre as famílias com renda de até dois salários mínimos, por exemplo, 47% escolheram “nenhuma das anteriores”. Entre as mulheres, 46%.
Portanto, não estamos falando apenas de uma discussão entre estudiosos de política.
Estamos falando de pessoas comuns.
Gente preocupada com o preço da comida, com emprego, saúde, segurança, escola, transporte, moradia, meio ambiente e com a possibilidade de construir uma vida melhor.
Talvez essas pessoas não estejam sem opinião.
Talvez simplesmente não encontrem uma caixa que comporte tudo aquilo em que acreditam.
A vida não tem apenas duas direções
Imagine receber um mapa que só permita virar para a esquerda ou para a direita.
Mas à sua frente também existem ruas que seguem em frente, retornam, cruzam, sobem, descem e levam a caminhos completamente diferentes.
O problema não seria você estar perdido.
O mapa é que seria simples demais.
Talvez aconteça algo parecido com a política.
Posso defender que ninguém passe fome e, ao mesmo tempo, acreditar que uma boa política social precisa oferecer caminhos para autonomia.
Posso acreditar que empresas, investimento e empreendedorismo são fundamentais para gerar riqueza e emprego sem imaginar que o mercado resolverá sozinho saneamento, desigualdade ou planejamento urbano.
Posso defender liberdade individual e responsabilidade pessoal, reconhecendo ao mesmo tempo que as pessoas não começam a vida nas mesmas condições.
Posso querer crescimento econômico sem aceitar que ele destrua a água, o território e os recursos necessários para continuarmos crescendo no futuro.
Onde isso fica entre esquerda e direita?
Talvez dependa da pergunta.
E talvez não precise caber.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 sobre a polarização política do eleitorado brasileiro encontrou justamente uma realidade mais complexa do que a imagem de um país simplesmente dividido ao meio. Os estudos analisados encontraram principalmente polarização afetiva — a rejeição ao grupo adversário —, especialmente entre os grupos mais politicamente engajados, e não uma polarização ideológica generalizada do eleitorado.
Em linguagem simples:
quem está nas pontas da arquibancada pode fazer muito barulho sem que todo o estádio esteja torcendo da mesma maneira.
Primeiro o diagnóstico. Depois o remédio
Quando alguém está doente, normalmente não escolhemos primeiro o remédio e só depois perguntamos qual é a doença.
Fazemos o contrário.
Primeiro tentamos entender o problema.
Depois escolhemos o tratamento.
Na política, muitas vezes fazemos exatamente o inverso.
Primeiro perguntamos se a solução é de esquerda ou de direita.
Depois tentamos encaixar o problema dentro da resposta que já escolhemos.
Na minha visão, precisamos inverter essa lógica.
Primeiro entender o problema. Depois escolher a solução.
Às vezes será necessária uma atuação forte do Estado.
Em outras situações, empresas poderão inovar e executar melhor.
Em outras, organizações sociais, comunidades ou indivíduos terão papel decisivo.
E muitos problemas exigirão todos eles trabalhando juntos.
O manifesto que venho construindo parte exatamente dessa ideia: Estado, mercado, sociedade civil e indivíduo possuem capacidades diferentes. O compromisso não deve ser com o tamanho de cada um, mas com sua capacidade de funcionar e contribuir para o desenvolvimento coletivo.
Isso não significa procurar o meio entre esquerda e direita.
O centro ainda está na mesma linha.
A proposta é perguntar se precisamos continuar medindo toda a política com uma única régua.
A vida não vem em gavetas
Imagine uma família numa terça-feira comum.
O ônibus atrasa.
A mãe chega atrasada ao trabalho.
A criança também chega atrasada à escola.
O dinheiro está curto.
Alguém precisa de uma consulta médica.
Chove e a rua alaga.
Para o poder público, podem existir seis problemas:
mobilidade, trabalho, educação, assistência, saúde e drenagem.
Para aquela família?
Foi apenas terça-feira.
A vida não vem separada em gavetas.
Mas nossos sistemas muitas vezes vêm.
O próprio ponto de partida do Movimento pelo Processo de Integração de Sistemas Coletivos é este: saúde, educação, assistência, segurança, mobilidade, habitação, trabalho, meio ambiente e desenvolvimento econômico costumam ser administrados separadamente, embora se encontrem simultaneamente na vida das mesmas pessoas.
Por isso precisamos fazer os sistemas conversarem.
Dados precisam conversar.
Secretarias precisam conversar.
Políticas públicas precisam conversar.
O cidadão não pode continuar sendo responsável por montar sozinho um quebra-cabeça que o próprio Estado entregou desmontado.
Estamos enxugando o chão ou fechando a torneira?
Imagine uma torneira aberta derramando água no chão.
Pegamos um pano.
Enxugamos.
O chão molha novamente.
Enxugamos de novo.
Podemos comprar um pano melhor.
Podemos trabalhar mais rápido.
Podemos até contratar mais pessoas para enxugar.
No final do dia, poderemos apresentar um excelente relatório mostrando quantos litros retiramos do chão.
Mas existe uma pergunta muito mais importante:
alguém fechou a torneira?
Políticas públicas também podem cair nessa armadilha.
Medimos quantas consultas foram realizadas.
Quantas famílias receberam benefício.
Quantas vagas foram abertas.
Quantos cursos foram oferecidos.
Quanto dinheiro foi gasto.
Tudo isso importa.
Mas mede principalmente atividade.
Precisamos também medir transformação.
Quantas pessoas melhoraram de condição?
Quantas conquistaram estabilidade?
Quantas aumentaram sua escolaridade?
Quantas conseguiram trabalho?
Quantas ganharam autonomia?
O manifesto propõe justamente que o sucesso da política pública seja medido também pela capacidade de fazer pessoas avançarem.
Rede para quem cai. Escada para quem pode subir
Isso também vale para proteção social.
Se alguém está caindo, precisamos de uma rede.
Primeiro protegemos.
Ninguém consegue pensar em crescimento pessoal enquanto luta apenas para sobreviver.
Mas, depois que a pessoa está segura, precisamos construir uma escada.
Educação.
Qualificação.
Trabalho.
Crédito.
Mobilidade.
Oportunidades.
Autonomia.
A rede protege. A escada permite avançar.
Por isso não vejo sentido em escolher entre abandono e dependência permanente.
O próprio manifesto resume essa proposta como proteção sem abandono, desenvolvimento sem dependência permanente e autonomia sem indiferença social.
Isso é de esquerda ou de direita?
Sinceramente, essa deixou de ser a pergunta que mais me interessa.
A pergunta é:
funciona?
E precisamos acelerar
Essa discussão não é apenas filosófica.
A falta de integração cobra um preço.
E ele aumenta com o tempo.
Uma criança que perde anos de aprendizagem não recupera esse tempo automaticamente.
Uma família que permanece anos presa à vulnerabilidade perde oportunidades.
Uma cidade que cresce sem considerar água, saneamento, drenagem, mobilidade e capacidade ambiental cria problemas que podem levar décadas para corrigir.
Um rio degradado não conhece mandato.
Uma rede de abastecimento não aumenta sua capacidade porque mudou o governo.
O território guarda as consequências das nossas decisões muito depois que os governantes passam.
Por isso acredito que precisamos acelerar essa mudança.
Não porque esquerda ou direita não tenham boas ideias. Têm.
Mas porque a realidade não fica parada enquanto discutimos de qual lado deveria vir a solução.
O manifesto trata água, clima, biodiversidade, território, energia, saneamento e qualidade urbana como sistemas coletivos fundamentais, justamente porque desenvolvimento humano e sustentabilidade não podem ser separados.
Então, de que lado estamos?
Temos lado.
O lado da dignidade.
Da liberdade com responsabilidade.
Da solidariedade sem dependência.
Da autonomia.
Da eficiência.
Da ciência.
Da transparência.
Da sustentabilidade.
Do desenvolvimento humano e econômico.
Esses princípios estão na base do movimento: dignidade, autonomia, integração, responsabilidade, evidência, eficiência, liberdade, solidariedade, sustentabilidade e transparência.
Por isso:
Nem esquerda, nem direita não significa não ter lado. Significa escolher como lado o desenvolvimento das pessoas.
Talvez estivesse faltando organizar essa ideia
É daí que começa a nascer o Movimento pelo Processo de Integração de Sistemas Coletivos.
Não para criar mais uma caixa política.
Não para substituir duas ideologias por uma terceira.
E não porque imaginamos possuir todas as respostas.
A proposta é construir um método:
Pesquisar.
Integrar dados.
Entender as causas.
Construir soluções.
Testar.
Medir.
Corrigir.
Se funciona, aprendemos.
Se não funciona, corrigimos.
Se existe uma solução melhor, mudamos.
Talvez pareça simples.
Mas talvez seja exatamente essa simplicidade que esteja faltando.
Não acredito que milhões de brasileiros estejam sem opinião.
Acredito que muita gente simplesmente olha para os problemas da vida e percebe que eles não perguntam se somos de esquerda ou de direita antes de chegar.
E talvez tenha chegado a hora de nossa política fazer o mesmo.
Primeiro o problema. Depois a solução.
Primeiro as pessoas. Depois o rótulo.
Proteger. Integrar. Desenvolver. Emancipar.
Talvez este seja apenas um artigo.
Mas acredito que pode ser o começo de algo necessário.



