O uso medicinal de derivados da cannabis cresceu rapidamente no Brasil, mas a ciência ainda não acompanha o mesmo ritmo quando o assunto é o tratamento de transtornos mentais. A maior revisão já realizada sobre o tema encontrou resultados promissores em algumas condições, porém concluiu que as evidências disponíveis ainda são insuficientes para sustentar prescrições rotineiras em grande parte dos casos.
Os pesquisadores analisaram estudos sobre canabinoides aplicados a problemas como ansiedade, depressão, insônia, transtorno do espectro autista, síndrome de Tourette e transtorno por uso de cannabis. Os sinais mais favoráveis apareceram para insônia, autismo, Tourette e dependência da própria substância. Ainda assim, a qualidade geral das provas foi classificada como baixa ou muito baixa.
Um dos principais obstáculos é o tamanho reduzido das amostras. Muitos trabalhos acompanham poucos pacientes, por períodos curtos e com formulações diferentes, o que dificulta comparar resultados. Também há variações importantes na proporção entre canabidiol, o CBD, e tetraidrocanabinol, o THC, além de diferenças de dose e forma de administração.
Para ansiedade e depressão, condições frequentemente mencionadas na divulgação comercial de produtos à base de cannabis, os dados são particularmente limitados. Isso não significa que os compostos não possam funcionar, mas que ainda faltam estudos amplos, controlados e de longa duração capazes de demonstrar benefícios e riscos com segurança.
O cenário exige cautela de médicos e pacientes. A popularidade dos produtos não substitui a avaliação individual, e o uso sem acompanhamento pode provocar efeitos adversos ou interagir com outros medicamentos. O avanço da cannabis medicinal abre uma frente importante de pesquisa, mas o entusiasmo do mercado não deve ser confundido com comprovação científica.


