A Ferrari entrou de vez na era dos carros elétricos, mas fez isso da maneira mais Ferrari possível: apostando em um modelo pensado para causar fascínio e desconforto ao mesmo tempo. O novo Luce, apresentado em 25 de maio, é o primeiro carro totalmente elétrico da marca italiana e já nasceu sob o signo da controvérsia. O próprio diretor de marketing da empresa o descreveu como “polarizador”, e a reação inicial confirmou isso: redes sociais cheias de críticas, investidores desconfiados e uma recepção menos negativa por parte da imprensa especializada.
No papel, o Luce mantém credenciais típicas da Ferrari. O modelo usa quatro motores elétricos, entrega mais de 1.000 cavalos, acelera de forma brutal e atinge 193 milhas por hora, algo em torno de 310 km/h. O preço também segue o padrão da marca: cerca de 550 mil euros, o equivalente a aproximadamente US$ 640 mil, o que o coloca entre os modelos “de maior volume” mais caros da fabricante, ainda que abaixo dos hipercarros de edição limitadíssima.
Mas é no desenho conceitual que o carro rompe com a tradição. O Luce tem cinco lugares, algo inédito para a marca, além de quatro portas e mais espaço de porta-malas do que o Purosangue, outro modelo que já havia provocado debate por se afastar do padrão clássico da Ferrari. A diferença é que o Purosangue acabou virando sucesso comercial. Já o Luce avança um passo além e tenta reposicionar a marca para um futuro em que esportividade extrema e eletrificação possam conviver sem pedir licença à nostalgia.
Essa virada também passa pelo design. O novo modelo foi desenvolvido em parceria com a LoveFrom, coletivo criativo fundado por Jony Ive, ex-chefe de design da Apple, e Marc Newson. O resultado é um carro de linhas mais limpas, estética minimalista e interior tecnológico, mas com um visual externo que, para muitos fãs, não carrega o apelo emocional e escultural que se espera de uma Ferrari. A empresa parece ter entendido isso desde o início e assumiu o risco conscientemente.
O timing do lançamento também não é dos mais confortáveis. O mercado de superesportivos elétricos ainda não demonstrou grande apetite. A Lamborghini, rival direta da Ferrari, abandonou seus planos para um modelo totalmente movido a bateria alegando falta de interesse dos clientes. A própria Ferrari já reduziu sua meta de eletrificação para 20% da linha até 2030, abaixo da meta anterior de 40%. Isso mostra que, mesmo entre marcas de luxo, a transição para o elétrico ainda encontra resistência entre consumidores mais tradicionais.
Também há dúvidas do mercado financeiro. A Ferrari vale hoje cerca de 55 bilhões de euros, quase no mesmo nível de gigantes como a Ford, apesar de vender um volume infinitamente menor de veículos. No ano passado, a montadora italiana entregou 13.640 carros, enquanto a Ford vendeu 4,4 milhões. Nos últimos meses, investidores começaram a questionar se essa valorização não foi longe demais, e o valor de mercado da empresa caiu cerca de um terço desde outubro, especialmente após um evento com projeções de crescimento que decepcionaram.
Mesmo assim, a Ferrari não precisa transformar o Luce em campeão de vendas para considerar o projeto bem-sucedido. A leitura da revista é que o modelo talvez venda, no máximo, algo em torno de 9 mil unidades ao longo de quatro anos, mas pode gerar lucro mesmo abaixo disso. O ponto central é outro: estabelecer a Ferrari como marca relevante também no segmento elétrico. Nesse sentido, o Luce funciona tanto como produto quanto como teste estratégico.
A aposta da empresa passa por dois públicos. O primeiro é o cliente tradicional, colecionador, fiel ao cavallino rampante e potencialmente disposto a incluir o primeiro elétrico da casa em sua garagem. O segundo é um público novo, que talvez nunca comprasse uma Ferrari convencional, mas se interesse por um modelo elétrico com design ousado e cabine repleta de tecnologia. Segundo o presidente da empresa, a ideia é mirar quem “compraria uma Ferrari se, e somente se, ela fosse elétrica”. No evento de lançamento, cerca de metade dos convidados seria formada por pessoas que ainda não eram clientes da marca.
No fim, o Luce não tenta agradar a todos — e talvez essa seja sua principal coerência com a história da Ferrari. A marca está fazendo uma manobra arriscada: quer preservar seu prestígio, romper com parte da própria herança estética e ainda conquistar um novo mercado sem perder os velhos fiéis. Pode dar errado. Mas, se der certo, a Ferrari terá conseguido algo raro: provar que até uma das grifes mais tradicionais do mundo automotivo consegue entrar na era elétrica sem parecer apenas uma seguidora atrasada.


