As redes móveis brasileiras reservam apenas 5,74% de sua capacidade para o envio de dados dos celulares, o chamado upload. O percentual é o terceiro menor entre 22 mercados analisados pela empresa de medição de conectividade Ookla e pode se tornar um gargalo com a expansão de serviços de inteligência artificial.
A arquitetura atual foi construída para um comportamento em que o usuário recebe muito mais informação do que envia. Vídeos, músicas e páginas da internet consomem principalmente download. Aplicações de inteligência artificial por voz, câmera e vídeo, porém, exigem que o aparelho transmita arquivos continuamente para processamento em servidores remotos.
Em mercados líderes, quase 24% da capacidade já é destinada ao upload. A diferença importa para serviços multimodais que interpretam imagens em tempo real, mantêm conversas por áudio ou analisam o ambiente captado pela câmera. Quando a rede não consegue enviar os dados com rapidez, a resposta fica mais lenta ou perde qualidade.
O desafio brasileiro não se limita à divisão da capacidade. A infraestrutura 5G autônoma, conhecida como standalone, representa cerca de 10% da rede de quinta geração instalada no país. Essa versão permite aproveitar melhor recursos de baixa latência e gerenciamento de tráfego do que estruturas que ainda dependem de componentes do 4G.
O 5G já alcança 3.040 dos 5.570 municípios brasileiros. Entre 276,4 milhões de acessos móveis, 23,9% usam a quinta geração, enquanto 64,3% permanecem no 4G e 5,1% no 3G. A concentração de centros de dados em São Paulo também pode aumentar o tempo de resposta para usuários de regiões mais distantes.
As operadoras estimam investir R$ 36 bilhões em infraestrutura neste ano. O estudo não indica, contudo, quanto desse valor será destinado especificamente a ampliar upload, 5G autônomo e processamento regional. Sem essa adaptação, a popularização de ferramentas de IA pode expor uma limitação que era pouco percebida na internet móvel tradicional.


