Uma pesquisa com 9.591 pessoas que relataram pelo menos uma infecção por Covid-19 identificou que 39% dos entrevistados usaram medicamentos sem eficácia comprovada para tratar a doença. O resultado corresponde a aproximadamente quatro em cada dez participantes e inclui o uso de azitromicina, ivermectina e cloroquina.
As entrevistas foram realizadas em 2024, em 133 municípios dos 26 estados e do Distrito Federal. O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, nos Estados Unidos, e publicado em julho de 2026 na Revista de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo.
No conjunto da amostra, 63% disseram ter utilizado algum medicamento contra a Covid. Esse grupo é mais amplo do que o dos que recorreram a fármacos sem benefício demonstrado para a doença, pois também abrange remédios empregados no controle de sintomas, como os antitérmicos.
Entre os produtos sem eficácia comprovada para a Covid, a azitromicina foi a mais citada, seguida da ivermectina e da cloroquina. São medicamentos com outras indicações: o primeiro é um antibiótico usado contra infecções bacterianas; o segundo é um antiparasitário; e o terceiro é utilizado contra a malária e determinadas doenças autoimunes.
O levantamento encontrou uma associação entre a confiança na ciência e o uso de cloroquina. Entre os entrevistados que declararam desconfiar de cientistas, 20,6% relataram ter tomado o medicamento, contra 10,1% entre aqueles que disseram confiar nesses profissionais.
O consumo de qualquer medicamento também variou conforme a região. A proporção chegou a 74,1% no Norte, 67,6% no Nordeste e 65,2% no Centro-Oeste. No Sudeste, foi de 59,2%, e no Sul, de 58,7%. Os pesquisadores identificaram maior concentração do uso de cloroquina e ivermectina no Norte e no Centro-Oeste.
As mulheres relataram mais uso de medicamentos em geral do que os homens: 67,4%, ante 58%. No caso específico da cloroquina, a proporção foi maior entre homens, com 13,5%, enquanto entre mulheres ficou em 10,7%.
Na análise dos autores, a promoção desses fármacos pela Presidência da República e pelo Ministério da Saúde durante o governo de Jair Bolsonaro contribuiu para sua utilização. Os pesquisadores avaliam que a promessa de uma suposta cura favoreceu uma falsa sensação de segurança e serviu para contestar medidas de isolamento social.


