O volume de água que atravessa áreas alagáveis do baixo Amazonas cresceu de forma muito mais intensa do que a vazão do canal principal. No Lago Grande do Curuai, em Santarém, o fluxo médio registrado entre 2005 e 2023 ficou 60% acima do observado de 1970 a 2004, segundo estudo liderado pela Universidade de Brasília.
No mesmo intervalo, a vazão do rio Amazonas aumentou 4,7%. A diferença mostra que alterações relativamente pequenas no leito principal podem ser amplificadas nas várzeas, onde a água é mais rasa e se espalha por grandes extensões. Em algumas áreas, o efeito foi até 13 vezes maior.
A equipe reuniu medições de nível e vazão, imagens de satélite e modelos computacionais para reconstruir o comportamento das águas entre Manaus e Santarém de 1970 a 2023. Foram analisadas as planícies de Jatuarana, Parintins, Curuai e Monte Alegre.
Uma medição feita no Curuai durante o pico da cheia de junho de 2022 encontrou vazão próxima de 17 mil metros cúbicos por segundo. O valor é comparável à vazão média do rio Mississippi e revela que uma planície inundável pode transportar água como um dos grandes rios do planeta.
O aumento tem potencial para acelerar a erosão das margens, deslocar mais sedimentos e pressionar moradias, plantações e vias usadas por comunidades ribeirinhas. Os autores ressaltam, porém, que os efeitos ecológicos e sociais do fenômeno ainda precisam ser medidos com mais detalhe.
Os dados se somam a outros sinais de intensificação do ciclo hidrológico amazônico. O porto de Manaus registrou aumento de 18% na diferença entre os níveis mínimo e máximo do rio em comparação com o século passado, enquanto a extensão máxima das áreas alagadas cresceu 26% desde 1980.
A combinação de cheias mais fortes e secas severas torna o monitoramento contínuo das várzeas ainda mais importante. Os pesquisadores defendem que essas regiões sejam incluídas de forma sistemática nas medições oficiais para orientar ações de prevenção, conservação e adaptação das populações expostas.


