Um experimento inédito pretende acompanhar por dez anos como uma floresta tropical adulta reage a uma atmosfera com 50% mais dióxido de carbono. O AmazonFace prepara seis parcelas de mata preservada ao norte de Manaus e previa iniciar as medições contínuas em agosto, caso os testes finais das instalações fossem concluídos sem problemas.
A estrutura foi montada na reserva ZF2, estação experimental do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia localizada cerca de 70 quilômetros ao norte do centro da capital amazonense. Cada parcela é cercada por um anel de 30 metros de diâmetro, formado por 16 torres com 35 metros de altura.
Durante o dia, três áreas receberão ar enriquecido até atingir 620 partes por milhão de CO2. As outras três funcionarão como controle e permanecerão próximas da concentração atmosférica atual, de 420 partes por milhão. A diferença reproduz um patamar que poderá ser alcançado nas próximas décadas, dependendo da trajetória das emissões globais.
Cada anel reúne de 50 a 70 árvores maduras, além da vegetação de menor porte. Os pesquisadores estimam que as seis parcelas abriguem cerca de 400 espécies, diversidade muito superior à observada em experimentos semelhantes conduzidos em florestas de clima temperado.
Sensores vão medir temperatura, vento, concentração de gases, fotossíntese, crescimento das raízes, nutrientes do solo e variações na biomassa. O objetivo é descobrir quais espécies se beneficiam do carbono adicional, quais encontram limites para crescer e como essas respostas alteram as relações dentro do ecossistema.
Ensaios menores realizados pelo programa entre 2019 e 2022 já mostraram mudanças nas raízes de plantas do sub-bosque após meses sob uma atmosfera enriquecida. As plantas ampliaram estratégias para obter fósforo, nutriente escasso em muitos solos amazônicos e capaz de limitar o efeito de fertilização provocado pelo CO2.
Cerca de R$ 80 milhões já foram investidos no AmazonFace, metade por instituições brasileiras e metade pelo serviço meteorológico do Reino Unido. O custo projetado para os próximos dez anos chega a R$ 260 milhões. A equipe informa ter recursos garantidos para os primeiros cinco anos de funcionamento, período decisivo para entender quanto a floresta ainda pode absorver em um planeta mais quente.


