A história do povoamento da América do Sul ganhou um novo capítulo com a identificação de uma terceira onda migratória indígena, ocorrida há cerca de 1.300 anos. O movimento partiu da região que hoje corresponde ao México e deixou uma contribuição genética expressiva nas populações atuais do continente.
A conclusão vem do sequenciamento integral de 128 genomas de 45 povos indígenas distribuídos por Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru. O conjunto foi comparado a outras 71 sequências disponíveis em bancos de dados e deu origem a um estudo publicado na revista Nature.
As análises confirmaram duas migrações mais antigas já sugeridas por registros genéticos e arqueológicos. A primeira deixou vestígios de até 12 mil anos em Lagoa Santa, em Minas Gerais, e no Chile. A segunda ocorreu por volta de 9 mil anos atrás e aparece em materiais do Peru e da Argentina.
A terceira chegada não havia sido documentada com esse nível de detalhe. Segundo os pesquisadores, seus descendentes formam parte importante das populações indígenas que vivem hoje na América do Sul, mostrando que a ocupação do continente foi mais complexa e diversa do que indicavam os modelos anteriores.
O trabalho também encontrou sinais de redução populacional e maior isolamento depois da chegada dos europeus, no século XVI. Entre povos do tronco Tupi, as marcas genéticas são compatíveis com grupos menores e pouca possibilidade de intercâmbio, cenário relacionado a epidemias, escravização e perda de condições tradicionais de subsistência.
Trechos de DNA associados a ancestrais da Australásia, a neandertais e a denisovanos também foram preservados. Algumas dessas regiões se relacionam a resposta imune, fertilidade e características cardiometabólicas, mas o estudo não determinou qual vantagem elas teriam oferecido. Essa pergunta permanece aberta para novas pesquisas.
A equipe coordenada pela geneticista Tábita Hünemeier, da USP, já dispõe de cerca de mil amostras adicionais. O avanço amplia a presença de povos sul-americanos em bancos genômicos, historicamente concentrados em populações europeias e africanas, e deve permitir que a reconstrução dessa trajetória seja comparada com novas evidências arqueológicas.


