Se era para terminar assim, talvez fosse melhor não ter começado. A eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 encerrou também, muito provavelmente, a trajetória de Neymar em Mundiais — e o fez da maneira mais triste possível. O jogador que já foi a maior esperança de uma geração se despediu do torneio depois de somar menos de 45 minutos em campo em toda a competição. Um camisa 10 espectador da própria Copa.
O último ato foi um retrato cruel de tudo o que Neymar se tornou nos últimos anos. Ele entrou contra a Noruega quando o jogo estava 0 a 0, com a partida em aberto e tudo para decidir. Saiu de campo com o Brasil eliminado, tendo assistido, de dentro das quatro linhas, aos dois gols de Haaland que sepultaram a Seleção. Não conseguiu mudar o jogo. Não conseguiu nem organizá-lo. Presença simbólica onde se esperava, um dia, presença decisiva.
Um adeus sem grandeza
O que ficou dos minutos finais de Neymar nesta Copa não foi um lance de gênio, uma assistência iluminada ou um drible para a memória. Foi o descontrole. Aos 50 do segundo tempo, já com o Brasil perdendo, levou cartão amarelo por um pontapé em Ødegaard no campo de defesa — uma agressão gratuita, de quem havia perdido a cabeça. Momentos antes, quase se envolvera em confusão ao empurrar um adversário após uma dividida.
E veio o gol, de pênalti, para diminuir o placar. Deveria ser o instante de reação — pegar a bola, correr para o meio-campo e pedir pressa, na esperança de um milagre nos minutos que restavam. Neymar fez o oposto: ficou provocando o goleiro adversário, gastando um tempo que jogava contra o próprio time. Foi a imagem que resume a despedida — a de um jogador mais preocupado com o gesto do que com o jogo, mais com a própria figura do que com o resultado coletivo. Um gol que não serviu para nada, comemorado como se servisse para tudo.
Desde a lesão, nunca mais o mesmo
É impossível analisar esse fim sem olhar para trás. Desde a grave lesão no joelho que o afastou dos gramados por quase um ano, Neymar nunca mais reencontrou o jogador que havia sido. Foram retornos interrompidos por novas contusões, sequências que não engataram, uma luta constante e perdida contra o próprio corpo. O talento seguia lá, intocado — mas o físico, a explosão, a constância que transformavam esse talento em decisão desapareceram no caminho.
O Neymar que chegou a esta Copa não era o craque que carregou o Brasil por uma década. Era a sombra dele. Um jogador em reconstrução permanente, sem ritmo de alto nível, incapaz de sustentar 90 minutos ou sequer garantir um lugar entre os titulares. Os números não mentem: menos de 45 minutos em todo o Mundial dizem, com frieza, o tamanho da distância entre o que se esperava e o que foi possível.
A convocação que foi pressão, não futebol
E aqui mora a questão mais desconfortável. A presença de Neymar nesta Copa tem cada vez mais cara de decisão tomada por pressão — da torcida, da mídia, do peso do nome, do próprio simbolismo de uma possível despedida em Mundiais — do que por critério técnico. Levar à Copa do Mundo um jogador sem condição de ser titular, gastando uma vaga que poderia ter ido para alguém em plena forma, foi uma aposta no que Neymar já foi, não no que ele podia entregar.
Não é acusação pessoal ao jogador: é uma crítica à leitura que se fez dele. Neymar merecia, pela história, a chance de tentar. Mas uma seleção que sonha com o hexa não pode montar seu elenco a partir da nostalgia. E o desfecho — o camisa 10 entrando com o jogo empatado e saindo com a eliminação, os minutos escassos, o adeus marcado por um amarelo e uma provocação — expôs, da forma mais dura, o preço de decisões movidas mais pela emoção do que pela razão.
O que fica
Ninguém aqui torce contra Neymar, e é justamente por isso que doi. Ele foi um dos maiores talentos que o futebol brasileiro produziu, autor de noites inesquecíveis, peça central de conquistas e de sonhos. Mas nem os maiores escapam do tempo, e o tempo, com Neymar, foi impiedoso — acelerado pelas lesões, pelas escolhas de carreira e por um corpo que não respondeu mais como antes.
A Copa de 2026 devia ser, quem sabe, a última dança. Foi, em vez disso, um lembrete melancólico de que a despedida ideal raramente coincide com a despedida real. Neymar deixa o Mundial pela porta dos fundos, sem brilho, sem gol que valesse vitória, sem o momento de redenção que a carreira dele parecia merecer. Fica a saudade do que foi — e a certeza incômoda de que, faz tempo, ele já não era mais aquele. O Brasil se despede da Copa. E, provavelmente, também se despede, assim, do seu maior craque de uma era inteira.


