Dezesseis anos depois de erguer a taça pela primeira vez, a Espanha voltou ao topo do mundo — e o fez do jeito que dominou a Copa inteira: com a bola, com paciência e com autoridade. Em Nova Jersey, La Roja venceu a Argentina por 1 a 0, com gol de Ferran Torres logo no início do segundo tempo da prorrogação, e conquistou o bicampeonato mundial, tornando-se a primeira seleção a levantar duas taças de Copa do Mundo neste século. A geração de Lamine Yamal, Pedri e Rodri escreveu seu nome na história. E, do outro lado, encerrou o sonho de Messi de coroar sua despedida com o tetra.
Foi uma final de roteiro cruel para a Argentina, mas justa no panorama geral: a Espanha foi melhor do primeiro ao último minuto. Controlou a posse, cercou a meta de Dibu Martínez — que fez a partida da vida para adiar o inevitável — e mereceu o título que só veio no fim, quando o cansaço e a inferioridade numérica cobraram seu preço dos campeões do mundo.
O gol que valeu uma Copa
O desfecho começou a ser desenhado ainda no tempo regulamentar, num lance que mudou tudo. Aos 48 do segundo tempo, já nos acréscimos, Enzo Fernández acertou uma entrada duríssima em Cubarsí, levou o segundo amarelo e foi expulso. A Argentina, que já sofria para criar, teria de disputar os 30 minutos de prorrogação inteiros com um jogador a menos. Era pedir demais.
E a Espanha não perdoou. Logo aos 40 segundos do segundo tempo da prorrogação, Pedro Porro cruzou da direita, Nico Williams ajeitou de cabeça na segunda trave, e Ferran Torres apareceu para fuzilar de perna esquerda, sem chances para Dibu. O atacante do Barcelona, que entrou no decorrer do jogo, virou o herói improvável de uma final — o “Iniesta desta geração”, como já o apelidaram os espanhóis, numa referência ao gol que decidiu a decisão de 2010.
Dibu Martínez, o muro que quase salvou a Argentina
Se a Argentina resistiu tanto tempo, foi graças a um homem: Emiliano “Dibu” Martínez. O goleiro fez uma sequência de defesas espetaculares — em Yamal, Oyarzabal, Dani Olmo, Nico Williams, Cubarsí — e segurou o 0 a 0 muito além do que a lógica do jogo permitia. A Espanha finalizou dezenas de vezes, criou chances claras, e esbarrou repetidamente no camisa 1 argentino. Foi um esforço heroico e solitário, que só ruiu quando a Espanha, enfim, encontrou a brecha na prorrogação.
Do meio para a frente, porém, a Argentina foi banal. Sem conseguir fazer a bola chegar limpa a Messi — anulado por uma marcação espanhola cirúrgica —, a Scaloneta terminou a primeira etapa sem uma única finalização e só assustou de verdade uma vez, num chute de Messi já perto do fim da prorrogação, que nem tirou tinta do gol de Unai Simón. O plano de Luis de la Fuente para secar o gênio funcionou à perfeição.
Yamal, o futuro que virou presente
A imagem que fica é a do passado dando lugar ao futuro. De um lado, Messi, aos 39 anos, na despedida das Copas, tentando um último milagre que não veio. Do outro, Lamine Yamal, aos 18, atormentando a defesa argentina, criando, driblando, cruzando — a nova cara do futebol mundial recebendo, simbolicamente, o trono das mãos do maior de sua era.
Não foi a noite de Messi. Foi a noite da Espanha e de sua joia, que agora soma à prata olímpica de Tóquio e ao ouro de Paris o maior troféu de todos. A “armada” que chegou invicta havia 31 jogos coroou um ciclo dominante e se firma como a nova potência a ser batida no futebol de seleções.
O que fica
A Argentina se despede da Copa como vice-campeã, de cabeça erguida por uma campanha de raça, mas derrotada pela seleção mais consistente do torneio. Messi encerra sua trajetória em Mundiais sem o bicampeonato, mas já eternizado como campeão de 2022 e um dos maiores de todos os tempos — um título a menos não apaga uma obra monumental.
Para a Espanha, é a consagração de um projeto. Dezesseis anos depois de Iniesta em Joanesburgo, foi a vez de Ferran Torres em Nova Jersey. La Roja é bicampeã mundial, a melhor seleção de uma Copa cheia de emoções, e devolve à Europa o topo do mundo. O futebol viu nascer, nesta final, não o fim de uma era — o de Messi —, mas o começo de outra, pintada de vermelho e liderada por um menino de 18 anos. A Espanha é campeã. E promete continuar por muito tempo.


