O roteiro parecia perfeito para o marketing: Neymar reestreia na Vila Belmiro depois da Copa, marca os dois gols do Santos e comemora fazendo o gesto de “dar as cartas”, numa provocação bem-humorada a quem passou a semana cobrando sua ida a um torneio de pôquer em dia de jogo do time. O problema é que, terminado o espetáculo pessoal do camisa 10, sobra o placar. E o placar é cruel: 2 a 2 com a Chapecoense, a lanterna do Brasileirão, dentro de casa, num jogo que o Santos precisava vencer para respirar longe do rebaixamento.
Foi a síntese perfeita do momento do clube. Um lampejo individual de Neymar para maquiar, e um coletivo que, mesmo diante do pior time da competição, não conseguiu segurar a vitória. O Santos segue em 15º, colado na zona de rebaixamento, e trocou a chance de dar um passo importante por mais um empate frustrante — desta vez com direito a atuação de gala do seu maior nome, o que torna tudo ainda mais contraditório.
Os dois gols e a provocação das cartas
Que fique registrado: dentro de campo, Neymar respondeu às críticas. Abriu o placar no primeiro tempo com uma bela jogada, daquelas que só ele faz, e empatou no fim, de pênalti, aos 44 do segundo tempo, deslocando o goleiro com a categoria de sempre. Dois gols numa reestreia pressionada, com a Vila a favor.
E veio a provocação. Depois da semana em que sua presença num torneio de pôquer em São Paulo — enquanto o time goleava na Venezuela — virou assunto nacional, Neymar comemorou fazendo o gesto de distribuir cartas, uma resposta debochada aos que o criticaram. Foi esperto, foi calculado, arrancou risadas e viralizou. Mas há um detalhe que a provocação não resolve: rir das críticas é fácil quando você faz dois gols; difícil é explicar por que, com dois gols do craque, o time ainda assim não passou de um empate com o lanterna.
O pênalti que ninguém garante que existiu
E aqui entra um ponto que a festa da comemoração tenta abafar: o empate saiu de um pênalti no mínimo discutível. A arbitragem marcou uma penalidade de Bruno Matias sobre Gustavo Caballero que revoltou os jogadores da Chapecoense, inconformados com a decisão. Ou seja, o ponto que o Santos salvou em casa — o único ponto — veio de um lance polêmico, contra um adversário que tinha motivos de sobra para reclamar.
Não desmerece o gol de Neymar, que bateu bem. Mas contextualiza o tamanho do vexame: mesmo com um pênalti a favor nos minutos finais, o Santos não conseguiu mais do que dividir os pontos com o time que menos venceu no Brasileirão inteiro. Se depender de arbitragem generosa para empatar com a lanterna, o problema é grave.
O que a provocação não esconde
É preciso separar as duas histórias que se cruzaram nesta noite. A individual é boa para Neymar: ele voltou, jogou, marcou duas vezes e mostrou que, quando está inteiro, ainda é o jogador mais decisivo do elenco. Ninguém discute o talento — nunca se discutiu.
A coletiva, porém, é preocupante. O Santos empatou em casa com a Chapecoense, seguiu na parte de baixo da tabela e desperdiçou a chance de embalar depois da goleada na Sul-Americana. E a dependência do camisa 10 fica cada vez mais evidente: nos jogos em que Neymar e Gabigol começaram juntos nesta temporada, o time venceu pouquíssimas vezes. A dupla dos sonhos ainda não virou resultado. E resultado, para um clube brigando contra o Z-4 e mergulhado em crise financeira, é a única coisa que importa.
O que fica
Neymar sai desta noite com dois gols, uma provocação viral e o aplauso da Vila. O Santos sai com um ponto, a 15ª colocação e a mesma sensação de sempre: a de um time que se agarra ao brilho individual do seu craque porque, coletivamente, não tem consistência para caminhar sozinho.
A provocação das cartas foi divertida. Mas, no jogo que realmente importa — o da tabela —, o Santos segue apostando alto e recebendo pouco. E contra a lanterna, em casa, precisando vencer, empatar não é resultado para comemorar com trocadilho nenhum. É resultado para ligar o alerta. De novo.


