A aproximação entre o governo de Donald Trump e a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, criou uma relação inédita entre Washington e Caracas, com forte influência norte-americana sobre a receita do petróleo e decisões estratégicas do país. O arranjo foi detalhado em reportagem da revista Time, baseada em entrevistas com autoridades dos dois governos.
Rodríguez assumiu o comando venezuelano após a captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, em janeiro. Antiga vice de Maduro e figura histórica do chavismo, ela passou a manter contato frequente com Trump e com o secretário de Estado, Marco Rubio, numa tentativa de estabilizar a economia e evitar novas ações militares.
Segundo autoridades ouvidas pela publicação, Rubio acompanha um mecanismo conjunto que administra receitas obtidas com as exportações de petróleo. O dinheiro seria liberado a Caracas conforme o cumprimento de condições acordadas. A estrutura também ampliou a participação de empresas norte-americanas no setor energético venezuelano.
A mudança já produziu sinais econômicos visíveis. Voos comerciais diretos entre os dois países foram retomados, campos de petróleo voltaram a receber investimentos e companhias estrangeiras iniciaram negociações para projetos de energia e infraestrutura. Rodríguez afirma que a abertura busca paz, estabilidade e recuperação do bem-estar social.
O acordo, porém, enfrenta críticas da oposição e dúvidas sobre soberania. A líder María Corina Machado sustenta que a presidente interina fez concessões para preservar o próprio poder. Rodríguez rejeita essa interpretação e diz que não pretende permitir que a Venezuela se transforme em instrumento da política interna de outro país.
Também permanece indefinido o calendário para eleições livres. Embora o governo tenha aprovado uma anistia e libertado milhares de detidos, Rodríguez condiciona uma nova disputa eleitoral a um entendimento entre as forças políticas. Ela evitou confirmar se Machado poderia retornar ao país e concorrer.
A experiência venezuelana combina recuperação econômica, pressão externa e ausência de uma transição democrática claramente definida. Seu resultado dependerá da capacidade de Caracas de transformar o ingresso de investimentos em benefícios para a população sem perpetuar estruturas autoritárias nem ampliar uma dependência política de Washington.


