Pelo menos 30 mil brasileiros já formalizaram em cartório a intenção de doar órgãos após a morte desde a criação da Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, a Aedo. A ferramenta completou dois anos com adesão crescente e passou a funcionar como um canal digital gratuito para registrar a vontade do cidadão em qualquer um dos 8,3 mil cartórios de notas do país.
O dado sinaliza avanço em uma área historicamente marcada por filas longas, desinformação e dificuldade de transformar intenção em documento formal. A manifestação pode ser feita digitalmente, o que reduz barreiras burocráticas e amplia o acesso ao registro. A expectativa é que esse tipo de formalização ajude a dar mais segurança às famílias e fortaleça a cultura da doação no país.
A necessidade é evidente. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 48 mil pessoas aguardam hoje por um transplante no Brasil. Ao mesmo tempo, o SUS realizou 31 mil transplantes no ano passado, o maior número da série histórica e um crescimento de 21% em relação a 2022. Os dados mostram uma expansão importante da rede pública, mas também deixam claro que a demanda continua muito acima da oferta disponível.
Nesse cenário, o registro prévio de vontade ganha peso estratégico. Embora a doação ainda dependa de uma série de critérios médicos e operacionais, ampliar o número de pessoas que deixam essa decisão documentada ajuda a reduzir incertezas no momento mais delicado do processo. Também funciona como instrumento de conscientização pública, ao tirar o tema do campo abstrato e levá-lo para uma decisão concreta, formalizada em vida.
A marca de 30 mil autorizações em dois anos ainda está longe de resolver o gargalo dos transplantes no Brasil, mas indica uma mudança relevante de comportamento. Com mais acesso digital, gratuidade e capilaridade dos cartórios, a política começa a construir uma ponte entre intenção individual e necessidade coletiva em uma área em que cada autorização pode representar uma nova chance de vida.


