Homens escondem tags em tênis, mochilas e carros para monitorar mulheres em São Paulo

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Dispositivos de rastreamento do tamanho de uma moeda, vendidos como ferramentas práticas do cotidiano, estão sendo usados em São Paulo para vigiar mulheres de forma clandestina. Casos registrados pela polícia mostram homens escondendo tags em tênis, mochilas, carros e até em pertences de filhos para acompanhar deslocamentos, rotina e localização de ex-companheiras e atuais parceiras.

A prática, que mistura obsessão, controle e tecnologia barata, vem aparecendo com frequência crescente nos registros de perseguição. Dados da região central da capital indicam aumento de 15,5% nos boletins de ocorrência por stalking no primeiro trimestre deste ano, e policiais relatam que o uso desse tipo de rastreador tem surgido de maneira cada vez mais recorrente nas denúncias.

Os relatos revelam um padrão inquietante. Em alguns casos, a mulher só descobre que está sendo monitorada ao receber um alerta no celular. Em outros, o dispositivo é encontrado por acaso, escondido em objetos pessoais ou no carro, depois de semanas ou meses de vigilância silenciosa. Há registros de pais que usam o mecanismo para acompanhar filhos e, por essa via, continuar monitorando a mãe da criança mesmo após o fim da relação.

Especialistas alertam que esse tipo de monitoramento clandestino pode configurar crime de perseguição e, dependendo do contexto, também se enquadrar como violência psicológica. O problema é agravado pela facilidade de acesso aos dispositivos, pelo baixo custo e pela aparência inofensiva de um objeto pensado para localizar chaves, malas ou mochilas, e não para invadir a vida de outra pessoa.

Na prática, o rastreador vira ferramenta de controle. O agressor não precisa estar presente nem fazer ameaças explícitas para impor medo. Basta saber onde a vítima esteve, com quem esteve e em que horários se desloca. O efeito é o de uma vigilância permanente, capaz de prolongar relações abusivas mesmo depois da separação.

A polícia e integrantes do sistema de Justiça já tratam o fenômeno como uma nova face da violência de gênero mediada por tecnologia. O desafio, agora, é fazer com que mais vítimas reconheçam a prática como crime, guardem provas e procurem ajuda formal, já que muitas vezes o rastreamento começa de forma discreta e só se torna evidente quando a rotina já foi completamente invadida.

O avanço desses casos mostra que a tecnologia doméstica, quando colocada nas mãos erradas, pode deixar de ser conveniência e virar instrumento de perseguição. E, nesse tipo de violência, o tamanho do aparelho diz pouco sobre o tamanho do dano.

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