O plano de governo de Flávio Bolsonaro propõe mudar a orientação de duas instituições centrais à produção de conhecimento no Brasil. Pelo texto apresentado pelo candidato, Capes e CNPq passariam a priorizar impacto produtivo, inovação e transferência de tecnologia. O plano também prevê transferir a governança do ensino superior para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Aproximar universidades e empresas pode gerar benefícios. O problema está em transformar retorno econômico identificável em prioridade geral de órgãos que também sustentam pesquisas sem aplicação comercial imediata. É dessa investigação de longo prazo que frequentemente saem conhecimentos usados, anos depois, na medicina, na agricultura e na própria indústria.
A Capes tem papel fundamental na pós-graduação; o CNPq financia pesquisadores e projetos de diferentes áreas. Se bolsas e recursos forem avaliados sobretudo por sua capacidade de virar produto, estudos importantes para compreender doenças, ecossistemas ou problemas sociais podem perder espaço. Essa é uma consequência possível da diretriz, não um corte já executado ou detalhado pelo candidato.
Uma política científica consistente pode apoiar a inovação sem rebaixar a ciência básica. O plano de Flávio ainda precisa explicar como protegerá pesquisas essenciais cujos resultados não cabem em uma previsão de lucro ou em um prazo eleitoral.


