O Palmeiras venceu o Vitória por 4 a 0 no Barradão e abriu oito pontos na liderança do Brasileirão. Mas quem viu a partida sabe que o placar elástico esconde a verdadeira história da noite: um primeiro tempo em que a arbitragem tomou uma sequência de decisões que beneficiaram o líder e, na prática, decidiram o jogo antes mesmo de ele ser decidido em campo. Mais uma vez, o Verdão levou os três pontos com a mão pesada da arbitragem pendendo para o seu lado — e mais uma vez o adversário saiu de campo com a sensação, cada vez mais comum entre os rivais, de que jogar contra o Palmeiras é jogar contra doze.
Não se trata de tirar mérito de um time que é, tecnicamente, o melhor do país neste momento. Trata-se de apontar o óbvio: num jogo que estava equilibrado, foram os erros de arbitragem — todos na mesma direção — que quebraram o Vitória e abriram o caminho para a goleada. E o mais irônico é que o pivô de tudo foi, justamente, quem abriu o placar.
A cotovelada de Maurício que o VAR fingiu não ver
O lance-chave da partida aconteceu aos 28 minutos do primeiro tempo, com o jogo ainda 0 a 0 e as duas equipes disputando de igual para igual. Numa dividida, Maurício acertou uma cotovelada no rosto de Cacá, zagueiro do Vitória, que precisou de atendimento. O árbitro Alex Gomes Stefano mostrou apenas cartão amarelo — e, pior, o VAR não chamou o árbitro para revisar o lance à beira do campo.
Não foi só reclamação de torcida. O comentarista de arbitragem Paulo César de Oliveira, uma das maiores referências no assunto no país, apontou erro grave da equipe de arbitragem: para ele, o lance pedia revisão e Maurício deveria ter sido expulso ainda no primeiro tempo. Ou seja: um dos nomes mais respeitados na análise de arbitragem do Brasil confirmou, ao vivo, o que a torcida do Vitória gritava do Barradão. O jogador que deveria estar no vestiário permaneceu em campo.
O detalhe que transforma o erro em escândalo
E aí vem a parte que faz o episódio saltar de “erro comum” para “favorecimento gritante”: o mesmo Maurício que deveria ter sido expulso foi quem abriu o placar para o Palmeiras. Livre na entrada da área, após passe de letra de Jhon Arias, mandou no canto e inaugurou a goleada. Um gol marcado por um jogador que, pela regra e pela leitura de um especialista isento, não deveria sequer estar em campo.
É o tipo de sequência que, quando acontece contra qualquer outro clube, é tratada como roubalheira. Quando favorece o líder, vira “lance normal de futebol”. A torcida do Vitória não deixou passar: o Barradão explodiu em gritos de “ladrão” e em críticas diretas à CBF.
As expulsões que completaram o desmonte
Com o Palmeiras já beneficiado pela não expulsão de Maurício, o Vitória ainda veria seu time ser reduzido a nove homens em questão de minutos. Primeiro, Cacá — o mesmo que levara a cotovelada — foi expulso após revisão do VAR por um carrinho em Jhon Arias. Aqui, é preciso honestidade: o lance foi duro e a arbitragem interpretou como vermelho. O Vitória contesta, mas essa expulsão é defensável.
O que não dá para engolir é o conjunto. O critério que sobrou de rigor para revisar o carrinho de Cacá foi exatamente o que faltou para revisar a cotovelada de Maurício minutos antes. É a seletividade que indigna: o VAR foi diligente para punir o Vitória e conveniente para poupar o Palmeiras. Na sequência, Luan Cândido, revoltado, foi expulso por fazer gesto de roubo à arbitragem — um desabafo que traduziu o sentimento de todo o elenco baiano. Com dois a menos e o líder à frente no placar, o jogo acabou ali. O 4 a 0 foi consequência, não causa.
O padrão que os rivais não cansam de denunciar
Seria mais fácil tratar esta noite como um episódio isolado. O problema é que ela se encaixa num roteiro que os adversários do Palmeiras vêm denunciando com frequência cada vez maior: a percepção de que os lances de arbitragem, nos momentos decisivos, tendem a cair para o lado do clube que lidera o Brasileirão. Cada torcida rival tem sua lista de queixas, e a cada rodada essa lista parece ganhar um novo capítulo.
É justo registrar que o Palmeiras rejeita essa leitura e que erros de arbitragem acontecem para todos os lados ao longo de um campeonato — inclusive contra o próprio Verdão, como se viu na recente eliminação para o Corinthians na Copa do Brasil. Mas a acumulação de episódios favoráveis em jogos-chave alimenta uma desconfiança que já não se restringe a uma ou outra torcida. Quando um comentarista técnico isento aponta erro grave num lance que resulta em gol do líder, o debate deixa de ser implicância e passa a ser legítimo.
O que fica
O Palmeiras chegou a 47 pontos, abriu oito de vantagem para o Flamengo e caminha com folga rumo ao título. É um timaço, comandado por um grande treinador, e provavelmente seria líder de qualquer jeito. Mas a forma como somou os três pontos no Barradão deixa um gosto amargo e uma pergunta no ar: quanto dessa liderança é construída em campo, e quanto é facilitada por decisões que, jogo após jogo, insistem em cair para o mesmo lado?
O Vitória perdeu por 4 a 0, mas foi derrotado muito antes do quarto gol — foi derrotado no apito. E enquanto a arbitragem brasileira seguir entregando primeiros tempos como o do Barradão, o troféu que o Palmeiras erguer no fim virá acompanhado de uma suspeita que nenhum título apaga. O futebol pede que o líder ganhe pela bola. Nesta quarta, ganhou também pelo cartão.


